Como delegar tarefas e deixar de ser um empreendedor “pato”



Já escrevi sobre o empreendedor “barata” que é aquele que abre um negócio pra ficar com cara de besta olhando pro nada sem fazer coisa alguma e esperando que alguma coisa acontece. Pois bem, hoje é o dia de falarmos sobre o empreendedor “pato” que teoricamente anda, nada e voa, mas não faz nada disso muito bem. Já fui um pato e me considerava até um pato bastante astuto e insubstituível, acreditando que se eu quisesse ter uma coisa bem feita eu teria que fazê-la, pois ninguém, ninguém em todo o planeta Terra, possuía os talentos e competências que eu tinha. Doce ilusão de um pato que demorou a entender que existiam outros patos que conseguiriam fazer aquilo que ele fazia de maneira até melhor. Enfim, o pato aprendeu a delegar.

UMA HISTÓRIA REAL de empreendedor pato
Você começa a sua empresa e nela começa a fazer de tudo. Você faz a prospecção, faz as entrevistas com os seus colaboradores, realiza o pós-venda, cuida da entrega daquilo que prometeu na venda e ainda é responsável por fazer os serviços bancários. Essa é uma descrição comum dos pequenos empreendimentos no seu primeiro ano de vida. Você, como empreendedor, traz tudo para a sua mão e se torna empregado de si mesmo, passando a trabalhar mais e a não fazer mais dinheiro.

Seu talento como empreendedor foi para o espaço. Agora (mesmo depois da sua empresa estar aberta) você é empregado. Daqueles empregados que se estivessem trabalhando na empresa de outra pessoa, se reuniria com o chefe para pedir um aumento daqueles. Além disso, outro problema surge: ninguém na empresa sabe fazer o que você faz e você também nunca incorporou os custos de cada um desses papéis que desempenha nas suas propostas. Você trabalha, trabalha, trabalha e final de semana após final de semana, você só enxerga uma coisa: a empresa está dando ré.



UM EMPREENDEDOR É UM DISTRIBUIDOR DE RIQUEZAS
Ninguém pode se nomear empreendedor se não trabalha para distribuir riqueza para as outras pessoas. Um empreendedor deve se comprometer a ficar rico, muito rico, para distribuir a riqueza para a sua família e para todos aqueles que são afetados pela sua empresa, como clientes, fornecedores e colaboradores. Nós, enquanto empreendedores, somos um dos principais alicerces de crescimento de uma nação e precisamos ficar atentos a isto para não cairmos na armadilha de que basta abrir uma empresa para virar empresário e ficar rico. Isso não existe. Uma empresa é somente um CNPJ ativo na Receita Federal se não gera riqueza para seus sócios e outros envolvidos.

Implementando metodologias de trabalho que eliminem o lixo, conseguimos criar um modelo de distribuição de riquezas eficiente delegando tarefas às quais não somos tão aptos a executar como pensávamos. É claro que no início de um empreendimento o empreendedor adota diversos papéis e os desempenha com destreza, mas para distribuir a riqueza de forma eficiente é preciso que ele não se identifique com esses papéis assumindo que cada qual poderia ser realizado por uma outra pessoa mais talentosa e competente que ele.

SOMOS SUBSTITUÍVEIS
Talvez uma das melhores coisas que tenho praticado ao longo dos anos é o exercício de reforçar a ideia clara de que posso ser substituído por outra pessoa. Quando faço isso, sinto-me ao mesmo tempo obrigado a passar o cajado para frente e totalmente livre das pressões normais às posições que ocupo. Quando comecei a Noxion, sabia que só iria começar a fazer dinheiro quando deixasse de “trabalhar”. Isto quer dizer que inúmeras tarefas das quais eu desempenhava, deveriam ser feitas por outras pessoas para que cada vez mais eu pudesse me focar no core business do meu negócio.

Se antes eu programava, desenhava, vendia e criava, em determinado momento alguém deveria ocupar cada uma dessas posições para me deixar mais “livre” para conduzir o negócio da melhor forma para elas. Assim, eu distribuiria a riqueza a qual me era oferecida e apoiava aqueles que recém chegavam na empresa para se desenvolverem profissionalmente. Foi assim que, pensando em morrer amanhã, comecei a fazer a empresa crescer e pouco a pouco assumi o papel ao qual era designado a ocupar: o de empresário e não o de empregado de mim mesmo.

As ferramentas e técnicas de trabalho que implementei foram fundamentais para a alavancagem do meu negócio. Veja alguma delas:

A. IMPLANTEI UM WIKI
Instalar um WIKI na Noxion foi uma das primeiras coisas que comecei a observar como sendo uma necessidade, pois vários processos da empresa, por mais que já estivessem sendo executados por outros, estavam na minha mão. Além disso, essas pessoas que colaboravam com a empresa e já compreendiam seus processos, não os tinha documentado para que outra pessoa os executasse no futuro. Com a implantação do mesmo sistema da Wikipedia para uso interno da empresa, pudemos disseminar o conhecimento de todos para todos e delegar melhor algumas tarefas que antes eram executadas somente por algumas pessoas.



B. CONTRATEI PESSOAS PARA O MEU LUGAR
Contratar alguém que trabalhe para você é a melhor forma de saber se você consegue delegar. Quando passei a substituir cada um dos papéis que desempenhava na empresa por outras pessoas contratadas por mim, comecei a observar que elas faziam as tarefas que eu fazia de forma muito melhor e ainda me forçavam ainda mais a documentar os pedidos dos meus clientes e os meus próprios pedidos para elas. Da área financeira até a área técnica, todos foram contratados para me darem a base fundamental do meu negócio e crescer ainda mais a empresa. No início, tive que apertar as contas, mas só pelo fato de ter contratado outras pessoas e poder voltar a fazer aquilo que eu sabia fazer de melhor para a empresa crescer, já recuperou esse aperto inicial de longe.

C. ELIMINEI TAREFAS IRRELEVANTES
Cerca de 80% de tudo o que fazemos no nosso dia a dia pode ser jogado fora. Se não tivéssemos feito, não iria fazer diferença nenhuma para o mundo. Tente fazer o seguinte exercício antes de dormir: reflita por alguns instantes no que de realmente importante você se engajou naquele dia e o que realmente você fez que se não tivesse feito teria gerado um problema bem grande? Com certeza pouquíssimas tarefas foram imprescindíveis de serem feitas enquanto outras só encheram o seu dia. Funcionamos assim: enchemos a nossa vida de ruídos que nos distraem das coisas realmente importantes. Ao invés de pensar o que você pode fazer a mais, é bem mais saudável pensar o que você não precisa fazer mais. Cortando os ruídos, eliminamos as distrações e focamos cada vez mais no indispensável.

Quando o “pato” entra em crise
Geralmente é nos momentos de crise que os questionamentos do empreendedor “pato” se agravam em relação ao rumo que a sua empresa está tomando e é justamente nesta hora de crise que precisamos avaliar onde estamos consumindo mais energia do que o necessário para tocarmos o nosso negócio. É preciso um bom nível de auto-observação para antecipar as nossas próprias “arapucas”, mas com um mínimo de esforço é possível em três dias de automonitoramento saber onde está escoando as suas maiores riquezas. Confiar no processo de aprendizado da vida talvez seja o conselho mais importante que já recebi. Confiar neste processo de obtenção de experiência através de vivências contínuas de situações mal resolvidas por nós, é o que nos torna sinceros aprendizes da vida em vias de pegar o diploma.

Se hoje estamos diante de uma crise no nosso negócio e enxergamos o nosso comportamento como patos, basta que paremos e analisemos uma a uma cada uma das tarefas as quais nosso trabalho nos exige para avaliar se existe possibilidade de delegar alguma delas.

Será que a nossa empresa não sobrevive se morrermos amanhã?

Trabalhando de forma mais distribuída enxergaremos um outro conceito de riqueza que não estará ligado a quantidade de dinheiro que recebemos, mas ao dinheiro que distribuímos para os outros e que a qualidade de vida que obtemos para aquelas pessoas que nos são mais importante: nossa família.

Antes que o pato se afogue, é melhor parar tudo para uma avaliação geral antes de prosseguir como empresário ou voltar a ser empregado de alguém.



1 Comentário

  1. Provavelmente seu melhor post até hoje. Esta é a lição mais difícil para um empreendedor, e provavelmente, a mais importante.

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